Mudanças no Facebook - Texto de Cora Ronai

18.04.2016

Quem frequenta o Facebook com certa regularidade já deve ter reparado: de uns tempos para cá, os usuários vêm postando menos informação pessoal, como selfies, historinhas dos filhos e netos, fotos de passeios, festas e refeições. Em vez disso, eles têm compartilhado mais vídeos e links para reportagens, artigos e posts escritos por formadores de opinião. Ou seja, em vez de produzir conteúdo, estão apenas reproduzindo conteúdo. De acordo com um relatório divulgado na quarta-feira por "The Information", uma influente publicação de tecnologia americana, essa mudança, já detectada pelo Facebook, está sendo levada muito a sério pela empresa.

 

Os números são importantes. Entre 2014 e 2015, houve diminuição de 21% nas postagens originais, embora, de janeiro para cá, a queda verificada tenha sido menor, ficando em 15%. Vale observar que isso não significa que as pessoas estejam usando menos o Facebook; significa apenas que o estão usando de forma diferente. Segundo a "Bloomberg", que repercutiu o relatório, Mark Zuckerberg tem discutido o assunto em reuniões internas, e criou um time especial para estudar o fenômeno e tentar revertê-lo.

 

É por isso que temos visto tantas lembranças do que compartilhamos há alguns anos, e é por isso também que o aplicativo dos smartphones nos convida a postar as últimas fotos que fizemos. A ênfase que vem sendo dada à ferramenta de vídeo ao vivo é outra consequência dos esforços desse time: vale tudo para estimular a publicação de conteúdo individual e original. Na última terça-feira, o próprio Zuckerberg a utilizou, para encorajar todos a seguirem o seu exemplo.

 

A mudança de rumo preocupa o Facebook não só porque qualquer rede precisa de bom conteúdo para sobreviver, mas também porque, afinal, ele nasceu como plataforma de conexão pessoal, para ajudar as pessoas a se manterem a par do que acontece com família e amigos. O problema é que há vários motivos por trás dessa mudança, e pouca gente acredita que possam ser revertidos.

 

Para início de conversa, os usuários começam a entender melhor como funcionam as redes sociais; depois de tomar conhecimento de tantos casos de bullying e de mal-entendidos, já conhecem bem os riscos do compartilhamento impensado. Além disso, com o passar dos anos, acabamos todos com mais amigos do que eventualmente conseguimos administrar, e ficamos mais conscientes do que estamos compartilhando. Estamos tomando mais cuidado não só com o que criamos, mas com a curadoria das nossas páginas.

 

Em suma, o próprio tamanho do Facebook começa a inibir manifestações mais espontâneas. No caso específico do Brasil e dos Estados Unidos, que também estão vivendo um momento político bastante esquisito, a polarização e os ódios têm feito a sua parte para segurar um pouco as opiniões pessoais. Muita gente não quer entrar na briga, e muita gente mais se sente mais confiante compartilhando uma opinião que vem com a chancela de um nome conhecido.

 

Por outro lado, o número de redes sociais aumentou, e hoje é fácil encontrar um canal apropriado para cada tipo de compartilhamento. Assim, as historinhas e fotos da família, por exemplo, acabam circulando pelos grupos do WhatsApp, onde em tese todos estão interessados nelas, em vez de ir para a ampla timeline do Facebook, onde podem ser vistas por todos. 


Selfies e fotos de comida continuam existindo em maior quantidade do que qualquer um de nós aguenta, mas estão cada vez mais restritas ao Instagram. E, mesmo lá, a impressão que eu tenho é que começam a ser postadas com mais critério.

 

No fundo, talvez tudo isso signifique apenas uma coisa: estamos amadurecendo como usuários.


(O Globo, Tecnologia, 11.4.2016)

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